Um negócio que me fazia bem, mais de uma década atrás, era escrever. Era o momento de juntar as ideias, fazer uma reflexão e jogar pra galera. Tinha outro blog na época, dava no máximo 10 leitores por publicação, mas sempre dava um retorno positivo. Não de likes, nem existia esse conceito, mas de construir uma conversa.
Na época se usava mais o Google Reader pra pegar esses conteúdos, era só cadastrar o endereço do feed RSS do conteúdo que interessava tava lá disponível, com o ordenamento que se quisesse, só ia apertando J pra ir pra próxima publicação. Os conteúdos também eram, em geral, abertos. Eu usava (e uso) o blogspot/blogger, outras pessoas o Wordpress ou ainda sites próprios, com todos os diferentes acessos agregados em um lugar.
Isso é muita liberdade para quem quer controlar a comunicação. O Google matou aquela facilidade porque não tinha como monetizar. Quem é esperto foi atrás de outros agregadores. Eu não fui esperto. Começava a fase Facebook. No meu caso, Twitter também, que mais ou menos servia como um agregador, embora mais limitado.
O Facebook parecia ser um lugar somente mais fácil de fazer aquelas reflexões, escrever aqueles textos, compartilhar com gente de fora do nicho dos blogs. Com a timeline dada por publicação e sem esconder nada, até que dava certo. Depois as publicações começaram a sair de data, algumas (várias) começaram a sumir. O FOMO batia e era insaciável. Aconteceu o mesmo com o Instagram depois de um tempo. O Twitter acredito que seja esse o padrão, mas ele dá a opção de ter a ordenação cronológica e sem mostrar curtidas dos outros (só tweets e retweets de quem se segue). Por enquanto me atende.
Isso começou a dar um desconforto. Esse controle de quem var ver ou não a publicação, ou mesmo de quais publicações eu vou ver. É inviável entrar sempre no perfil de cada um ver se há conteúdo novo. Um agregador é essencial para ver conteúdos. Um agregador que não serve bem as informações é um cercadinho do que se pode ter acesso do mundo.
Mas a ideia aqui não é exatamente falar de timelines. O que se tem aqui é que esses agregadores de RSS trazem conteúdo aberto de fontes diferentes (se tem fechado eu nunca usei, mas pelo que vejo de podcast eu suponho que sim). E pode ser qualquer agregador, se todo mundo se organizar direitinho seguindo o padrão, todos se comunica.
Eu comecei essa reflexão aqui na época das manifestações dos entregadores de aplicativos por melhores condições. Junto d esses entregadores, alguns comerciantes reclamavam das grandes taxas cobradas por esses aplicativos. Eu não gosto de usar telefone, nunca gostei, então a ideia de fazer tudo online sem ficar na dúvida se a pessoa do outro lado da linha entendeu direito o que eu falei é ótima. Porém os aplicativos nem foram tão inovadores assim, eu já fazia pedidos online na ME Pizzas a anos. Outros poucos negócios já tinham seus sites.
Nesse caso eu vi que uns vários restaurantes começaram a criar sites próprios, ou contratar outros serviços para pedidos online. Demorou um pouquinho mas a oferta hoje me satisfaz, conseguiram fugir desse cercado. E o interessante é que alguns restaurantes com site próprio incluíram o cardápio no os aplicativos para trazer mais clientes.
Porém existe outro problema em empresas que precisaram iniciar o comércio online nesse último ano. Muitos se basearam somente em Instagram e Facebook para fazer a divulgação e manter cardápio. Eu concordo que é o mais fácil e prático, mas é uma limitação importante pra quem não tem conta nessas redes. Vários lugares eu já procurei cardápio, encontrei só na página do Instagram, ou até só em Stories. O detalhe é que, quando não se tem conta, não se tem acesso aos stories. E a rolagem das publicações é limitada também, se for procurar algo mais antigo (link direto ainda funciona). Nesse caso, mesmo sem toda a infraestrutura de compra e venda online, daria para deixar um site aberto com o cardápio/catálogo/etc. e contatos. Até lembro de algumas empresas que usavam serviços de blog pra isso anos atrás. E não é só isso, existem outros serviços que facilitam nesse ponto, como a versão grátis do Goomer que permite montar um cardápio e formata um pedido pra ser enviado por Whatsapp (se rolasse Telegram também eu tava bem contente).
Nessa volta ao cercado dos Zuckerapps, acontecia um fenômeno curioso quando eu usava Instagram. Era frequente algum amigo mandar alguma publicação na mensagem particular e cair num perfil privado. Nunca entendi isso, mas depois de alguams discussões acho que era pra aumentar o número de seguidores forçando a pessoa a seguir a página pra ver o conteúdo.
Tendo fechado as contas dessas duas redes mais restritivas eu também me fechei fora do cercado dessas redes. São páginas de uso ruim para quem não está usando o aplicativo oficial. Nem as páginas para ver no PC funcionam direito, e imagina se as versões mobile seriam boas (tem que usar o app, dar as permissões, etc.). Daí tem conteúdo de perfis privados, conteúdos limitados a amigos, amigos de amigos, stories, tudo bloqueado. E as pessoas insistem em mandar esses conteúdos, só digo que não posso ver. Tem que virar sócio do clubinho. Quando mandam um vídeo do YouTube é um alívio, e ainda dá pra acelerar até 2x.
Outra questão de cercadinho que surgiu são os podcasts. Até recentemente o normal era servir o conteúdo usando um feed RSS. Cada um escolhe o aplicativo que preferir e pode ter acesso a qualquer podcast. Ou poderia. O Spotify fez um movimento de tirar vários podcasts dos feeds e colocar em seu cercadinho. Por enquanto pra usuário grátis funciona, mas sabe-se lá até quando. O aplicativo também é ruinzinho, pelo menos é usável.
E Spotify e serviços assemelhados fazem parte de outro cercadinho. Serviço cujo cercado era físico em outra época. Com os serviços de compartilhamento P2P e a liberdade da pirataria, quaisquer conteúdos estavam acessíveis a qualquer um. Áudio, vídeo, texto, jogos, a limitação era o tamanho da banda e encontrar seeders. Ainda lembro bem a quantidade de metal obscuro que dava pra encontrar no Soulseek.
A liberdade, porém, tem seu preço. No caso é dar uns cliques a mais, achar o torrent no site certo, catar a legenda do vídeo, achar o crack do jogo. As empresas tiveram sucesso em cercar as mídias oferecendo praticidade no uso dos serviços. Assina um serviço de streaming e encontra faćil um catálogo em boa qualidade, com legenda ou dublagem, e ainda indicações de obras afins. Os serviços de música eram um pouco limitados, mas aos poucos conseguiram negociar com todas as gravadoras que lhes interessavam. O Google Play Music dava opção do usuário de subir um número (nem tão) limitado de mp3 também. Não sei como esse serviço funcionava sem receber processos mas, como todo serviço do Google, esse aí já era. Netflix foi diferente, começou como um serviço com pouca concorrência e muitas obras no catálogo. Aos poucos as empresas foram abrindo serviços concorrentes e tirando as obras das quais tinham os direitos dos primeiros catálogos. Isso faz com que o custo de entrar em todos os cercados acabe sendo vultoso.
Uma motivação que tive pra essa reflexão é que não vejo muitas críticas a esses cercamentos nos meus grupos sociais, exceto por quem é envolvido com software livre. Então eu acho importante observar onde é prejudicial e que em alguns casos existem alternativas para deixar o conteúdo mais livre, e seu consumo também.