sábado, 26 de dezembro de 2020

Receita com bicho vivo

Adiei este momento o máximo que a ansiedade me convenceu. Depois de ano na expectativa - quiçá mais tempo, finalmente fiz uma receita com fermento biológico.

"Mas tu nunca fez pão?" não.

Não era pra ser algo muito difícil. Afinal, a humanidade está aí a milênios fermentando coisas. Inclusive alguns dizem que a cerveja foi a base da civilização (How beer gave us civilization, paywall). Ou diziam, esse texto tem 7 anos já.

Entretanto, é algo mais delicado do que o que eu estou acostumado a trabalhar. Aí já é bicho vivo. Bicho fungo, no caso. Na minha cabeça, a ação do fermento é menos determinística que a dos ingredientes da até então mais difícil receita que já havia feita: bolo.

Somada ao ingrediente desconhecido tem a minha absoluta capacidade de quebrar tudo que eu toco. Um Taz involuntário. Daí pra praticar fungicídio culposo é um passo. The force is strong with this one. Murphy's Law force.

E se o fermento estiver vencido?
E se eu matar o fermento com muito calor?
E se ele não ativar por falta de calor (difícil nesses dias em Forno Alegre, na real)?
E se rolar uma contaminação e entrar um fungo invasor?
E se o bicho não for com a minha cara e decidir fazer greve?
 
Muitas dúvidas, muitos pontos de falha.
 
Então aconteceu uma falha que eu não previ. A balança ficou sem bateria. Eu iria perder a precisão na medida dos ingredientes. Mas aí tinha outras coisas vivas que poderiam estragar então dei meu jeito. Enchi 250mL de água em um recipiente, pois todas as medidas eram divisíveis por 250mL ou 250g, e usei um recipiente igual pra colocar as substâncias. A pesagem ficou por conta de comparar no braço os recipientes cheios. Mas deu certo.

A execução também teve umas falhas. Ignorei o pouco tempo de fervura da calda de gengibre com açúcar e ficou um leve amarelado. Como deu certo fica a ideia de fazer uma calda mais escura na próxima. Só pra testar um negócio. Bebida fermentada sabor calda de pudim.

Sem as medidas de massa ficou meio difícil equilibrar as quantidades. Eu não vi quanto de água tirei do garrafão pra fazer a calda. Também não sabia quanto precisaria tirar pra compensar o volume dos ingredientes da calda. Tirei no olho. Peguei o funil, coloquei no garrafão. Comecei a encher o conteúdo da panela, parte derramou e encontrei vestígios até 2 dias depois. Encheu o garrafão. Bastante calda na panela ainda. Precisaria tirar água de canudinho. Não tinha canudinho em casa. Usei uma bomba de chimarrão.

E agora, seria que junto com a água eu não teria sugado calda em demasia da mistura?
 
Garrafão cheio, hora de colocar o fermento. Pela receita eu deveria colocar 1/4 de colher de chá. Como coloca isso? Acho que foi meia colher. Será que foi demais?
 
Agora é esperar fermentar.
 
E se não for tempo suficiente?
E se for tempo demais?
 
No caso estiquei mais uma noite porque a precisão no horário exigiria coar tudo à meia noite. Alto risco de desastre.

Hora de coar e passar pras garrafas menores. Como é que eu ia transferir sem derrubar tudo? Funil de novo. E consegui encaixar com o coador então ficou show. Porém o sistema pareceu meio instável na garrafa. Certo que ia cair quando eu começasse a encher. Balançou mas não caiu, ótimo. Depois da primeira é mais fácil controlar a saída do garrafão.

Sobrou exatamente meio litro no final, e eu não tinha garrafas de meio litro. Provei essa sobra. Sucesso.