terça-feira, 5 de junho de 2018

O Motorista Intransigente

As bicicletas de aluguel se tornaram meu meio de transporte preferencial desde que comecei a usar. Ao contrário da versão anterior são razoalvemente boas e confortáveis - pelo menos mais confortáveis pro transporte curto que meu banco atual. Nem sempre dá, a parada mais próxima fica a 2 quadras de casa e pode haver limitação de bicicletas disponíveis na origem e vagas disponíveis no destino.

Então, num dia em que errei a previsão de todos os horários - e, incrivelmente, não me atrasei em nenhum evento - chamei um aplicativo. O plano era pegar a bicicleta, mas tinha somente 15 minutos e aparentemente o destino estava lotado, ou seja, factível mas arriscado.

Fiz a chamada na saída do banho, antes de me vestir, pra ter certeza que o carro demoraria o mínimo possível. Saí do prédio e o motorista chegou, até agora plano dava certo. O destino era numa esquina. Comentei com o motorista "essa volta na quadra não é pra dar porque a entrada é bem na esquina da rua". Pelo aplicativo de mapa as ruas da volta desnecessária inclusive estavam engarrafadas e eu comentei alegremente. Melhor seria dizer eufórico, naquela euforia ansiosa de quem se admira com o 20 no dado com 1 de HP.

O motorista assentiu. "É em tal rua né?". "Sim, é nessa esquina, segue reto até lá". Chegando umas quadras antes: "já é nessa esquina aqui né?". Aí já achei que ele ia ignorar completamente a conversa e seguir o GPS. Não tinha problema, assim que ele saísse da rua eu desceria. Confirmei a rota com ele, mais umas quadras e eu desceria na esquina, ele não parou no (primeiro) lugar errado, tudo ok.

Daí ele decide dar a volta na quadra no final. "Cara, era pra seguir reto, me larga aqui na esquina que eu vou a pé na próxima quadra." "Não tem problema, eu dou a volta na quadra e te deixo bem no local, não está engarrafado lá." "Tchê, é bem na esquina, não faz a menor diferença na saída essa volta, mas eu estou atrasado e tu vai andar 2 quadras a mais.".

O motorista não parou pra eu sair. SE FUDEEEEEEE. Ele justificou que daí não precisaria seguir reto na rua em que estávamos. Primeira nota não máxima que dei no aplicativo. Não custava pra ele me deixar na primeira esquina e ele ainda poderia pegar uma rua antes.

Depois de passar a hora e meia do filme putaço, refleti, enquanto caminhava para casa. Caminhava pois não estava disposto a aturar um desconhecido, agora que a confiança no aplicativo já tinha baixado de 100%.

Apesar do desagrado, essa corrida foi um reflexo do que eu andei feito esse ano, só que sem eu na direção. Formula um plano. Segue o plano. Vê que vai dar errado. Não para com o plano. No final até não dá tão errado (o filme não começou pontualmente), mas também não dá certo, e gera um bocado de estresse. Devido a esse comportamento já acharam que eu fosse conservador - quem me acompanha jamais pensaria isso mas a ideia veio em um contexto peculiar.

Talvez até o motorista não tivesse feito de propósito e só tenha arranjado uma desculpa pra esse lapso. Manjo disso. Já fiz muito e tento evitar, já que eu acho que reconhecer o erro, e não justificar, é o primeiro passo pra não repetir. Os outros eu não faço ideia mas alguma coisa certa eu tô fazendo, de vez em quando, eu acho.