tava vendo agora que a era pré serviços de streaming, apesar das dificuldades, era a que dava mais liberdade de playlist— Pedro Scheffer (@pedrobode) August 26, 2018
era difícil, mas procurando nos lugares certos se encontravam altas obscuridades (sdds soulseek)
Não sei se foi o tempo ou o luxo, mas as facilidades da vida contemporânea me dominam.
Lá na adolescência, quando abandonei minhas fantasias de autossuficiência (mentirá) e comecei a conviver em sociedade (masomeno), meus eixos de integração com os amigos eram música, emuladores, Magic, RPG e basquete com mendigos.
Era uma época complicada, mas nem tanto. Conexão discada, mas modem 56k. Disquete, mas de 1,44MiB. Magic com valor baseado em dólar, mas este estava cotado próximo de 1 pila. Época de ICQ, de IRC popular, a prévia do desastre com o lamentável (pois bem sucedido) MSN Messenger. Não tinha nem Orkut, muito menos Mob Wars no Facebook.
A pirataria era difícil, mas útil. Eu cuidava bem da coleção de mp3 e ROMs de SNES. Usei Kazaa, eMule, SoulSeek. Fora do P2P tinha os gerenciadores que permitiam parar um download e continuar na próxima semana. De início era um arquivo por vez, depois ia por álbuns. (Li alguma thread no Twitter sobre isso faz pouco, se achar de novo eu linko aqui). Era a noite - ou mais de uma - baixando algo.
A primeira centena de músicas foi emocionante, o milhar então... "ae, tenho 7k mp3 no meu HD" "CARALHO, TEM ALGUMA COISA QUE TU NÃO TEM??!!".
Uma vantagem da pirataria é que, apesar do trabalho de encontrar - o que significa procurar o arquivo e ele não ser falso/ter qualidade adequada - qualquer coisa estava ao alcance. Sempre teve um movimento contra, mas coisas como o Metallica processando o Napster só prejudicaram a pirataria pontualmente.
Minha playlist era vasta, tinha tudo o que eu queria ouvir e era aleatória o suficiente pra não me entediar. E pra pirataria quase serve a regra 34: se algo existe já foi pirateado.
Um dia veio a banda larga. Com ela, novas oportunidades de negócio. Começaram a surgir serviços com a facilidade da pirataria e a garantia de ter os arquivos verdadeiros e com qualidade.
Por muito tempo usei o last.fm pra explorar músicas e baixar fora dele (perfil ainda meio que ativo https://www.last.fm/user/srbode). Quando entrei no mestrado perdi um pouco a capacidade de usar minhas músicas no momento de necessidade e assinei o serviço. Dólar barato e era 3 por mês, além de ouvir só as minhas aleatoriedades, tava adequado. No final desse período bati as 28k de músicas no HD. E sim, ouvi todas.
Começar a trabalhar depois impôs mais dificuldades nisso, comecei a assinar serviços que davam mais controle sobre o que eu ouvia. Google Play, Spotify e Deezer foram os que usei, na sequência. Vastas bibliotecas de fácil acesso, sempre comigo com a praticidade da conexão 4G no celular.
Muito fácil.
Muito prático.
Eu tava no paraíso.
Ou nem tanto.
Desde o início da história tinha o problema de como remunerar os detentores do direito e os responsáveis pela distribuição. A pirataria aceita qualquer coisa. A distribuição legalizada depende de acordos e contratos. Como esses contratos dependem de quem faz e de prazo de validade, acabam ficando lacunas nas playlists. Faltam músicas, faltam álbuns, faltam artistas. Grandes e pequenos, famosos e desconhecidos. E quem está lançando seu som de forma independente pode ter até que pagar para colocar seu catálogo num desses serviço, e daí talvez ganhar alguma coisa. Ouvintes, porque de dinheiro parece que se paga muito pouco pela execução.
A consequência disso é a playlist incompleta. Meu velho HD tocado num canto enquanto monto enormes listas de exploração musicais. Alguns artistas, agora, só no YouTube, mas me recuso a ouvir música por lá. Além de não ser prático, se tiver na rua é um consumo proibitivo de banda.
Uma solução, não ideal, seria voltar aos downloads, ou rips dos CDs (melhores mas menos práticos). Um problema é o espaço em "disco", tenho um historico de celulares torrando os cartões SD extras. Outra solução seria voltar pro Google Play, que aceitava até uns 20k de uploads próprios, se eu não me engano. Além disso, tinha obras fora do catálogo da rádio que podiam ser compradas por fora. Os uploads seriam necessários, mas só a parte de ter álbuns fora do catálogo já ajuda.
Por sinal, quanto à remuneração dos artistas, gosto muito dos que conseguem fazer crowdfunding e liberam as obras nos serviços de streaming depois. Já participei de vários e alguns eu nem fui buscar o CD da recompensa porque a presença online já me bastava.